quinta-feira, 23 de março de 2017

Putas e vinho verde

O senhor holandês não está esquecido que tem uma Red Light District e a afirmação também não significa que ele não goste de beber. O que ele quer dizer, é que dependendo nós de caridade alheia (mais precisamente daquela que nos é gentilmente cedida pelo norte da europa), só podemos almejar na vida trabalhar mais por menos. Que isto não faz sentido sei eu, mas ficarmos perdidos no significado de cada palavra também não ajuda.

A conversa

Expliquei que estou grávida a dois miúdos de 10 anos institucionalizados, e o espanto e excitação deles foi tal, que por segundos pensei que era aquele o momento em que lhes ia ter de lhes explicar por onde é que o bebé saía.

Alerta vermelho

Estar grávida é ter a nossa gravidez discutida em reuniões de equipa como se fosse um sismo com data marcada.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Pretty woman


"(...) Compreende-se que a preocupação da aparência física possa tornar-se para a rapariga uma verdadeira obsessão; princesa ou pastora, é preciso sempre ser bonita para conquistar o amor e a felicidade; a fealdade associa-se, cruelmente, à maldade, e, quando as desgraças desabam sobre as feias, não se sabe muito bem se são crimes ou se a sua fealdade que o destino pune".

Simone de Beauvoir
(Segundo Sexo)

quinta-feira, 16 de março de 2017

How I met your mother

No outro dia, no comboio, iam à minha frente duas adolescentes, com as suas pastinhas e mochilas, com todo o ar de quem acabou um dia normal de aulas na faculdade. A típica conversa entre amigas, as intrigas de ex namoros, do diz que disse, quem respondeu à mensagem, não respondeu, "devias ver a foto que pôs no facebook", "amanhã vou fazer assim e assado e vai ver só", etc. A única originalidade, é que falavam de gajas. E toma, aí está, 2017 e a homosexualidade vivida da forma mais natural que se possa imaginar, e eu até me fico a sentir estúpida de ter um nome para diferenciar isto, porque nem nome devia ter.

E a meio de todo o drama que é o romance adolescente, liga uma das mães. E eu viajei no tempo e imaginei, em que mundo viverei eu daqui a 18 anos, com a minha cabeça anos 80? Socorro.

terça-feira, 14 de março de 2017

O grande plano

A pergunta mais estranha que as pessoas me fazem é se foi planeado. Não me ofende, mas há algo de caricato numa pergunta tão privada feita por pessoas não tão próximas assim.

Apesar de eu própria não ter sido nada planeada, mas muito desejada, acredito que a maternidade planeada (ou a sua recusa), é uma conquista maravilhosa por parte das mulheres. No entanto, esta parece-me uma pergunta com rasteira, mas ainda não percebi bem onde. O que é que as pessoas esperam dizer, se eu disser que não planeei? Que foi tudo um erro, que estou em pânico? Que vou encher-me com um ano de pílula, e engoli-la com chá de canela e gengibre a ver se vai lá?

segunda-feira, 6 de março de 2017

A conspiração toxo-plásmico-cósmica

Numa entrevista, perguntaram à Elis Regina o motivo pelo qual ela achava que a canção Romaria tinha tido tanto sucesso. Ela riu-se com a sua típica gargalhada e respondeu que nós damos o tiro, mas quem mata é Deus. Desde que decidi engravidar, essa expressão nunca me saiu da cabeça. Pôr uma intenção, dependia de mim, mas se nascia uma criança dessa intenção, já me ultrapassava.

É importante manter isto em mente, se uma pessoa não quiser enlouquecer com a culpa de num momento de descontração pôr tudo a perder. Desde a primeira consulta, a obstetra explica as mil e uma formas com as quais vamos construir a nossa redoma de grávida: a toxoplasmose que nunca apanhámos a comer carnes mal passadas e a dormir com gatos, vai ser agora; aquela doença que nos põe a arder em febre, e que não temos há anos, vai ser agora; toda a fruta e salada que comemos em restaurantes e que nunca nos transmitiu nada, vai ser agora.

Não me posso cansar, o corpo está a mudar; não posso estar muito tempo sem comer, o bebé não gosta de quebras de açúcar; mas doces também não, olha a diabetes gestacional; não posso pôr qualquer creme, cuidado com os químicos no primeiro trimestre; nada de marisco, sushi e absolutamente, nada, nada, nada de morangos. E os fóruns e páginas sobre maternidade são infinitamente piores que qualquer médica ou enfermeira. Se uma pessoa se fiar em tudo o que lê, fica com a sensação de ser o centro do Universo, mas no pior sentido possível: o Universo está muito concentrado nesta tarefa de nos tramar.

E depois lembrei-me daquele livro: Os Bebés de Auschwitz. As três mães, que nunca se conheceram, engravidaram no início do pior momento das suas vidas. Por mero acaso foram-lhes dadas roupas muito largas quando entraram no campo de concentração e conseguiram esconder toda a gravidez dos funcionários alemães e das rondas do Mengele; passaram por um stress indescritível; fome à beira do suportável; extremo esforço físico (estavam em campos de trabalho); dividiram camas e dormitórios com pessoas doentes e por vezes à beira da morte; e por fim mas não menos importante, estavam a meio de uma guerra, longe do seu País, sem casa, sem família (sem pai da criança) e sem fazer ideia como a história delas e de meia Europa ia acabar. No entanto, sobreviveram a isto tudo e ainda entraram em trabalho de parto - nas condições de higiene menos aconselháveis e nas situações mais caricatas (uma pariu num carrinho de mão enquanto estava a ser levada de um campo para outro) - precisamente na semana em que a guerra acabava e os alemães estavam mais preocupados em fugir do que matar grávidas. Tinham que nascer, não é?

quinta-feira, 2 de março de 2017

Silêncio grávido ou da grávida

Há uma expressão inglesa muito curiosa, que é o silêncio grávido. É aquele silêncio cheio, tão cheio e pesado que ninguém consegue abrir a boca. Uma pausa, entre digerir o que foi dito ou o que aconteceu, e receber o que vem a seguir.

Tive aulas com um terapeuta de grupo cuja capacidade de permanecer em silêncio, durante as sessões mais bizarras de grupo, era anedótica. Quando finalmente o conheci pessoalmente já conhecia há muito a lenda. Percebi então que o seu silêncio não era despreocupado ou passivo, mas profundamente sábio e também um acto de fé: absoluta fé na capacidade natural das pessoas se relacionarem e irem acertando agulhas. Só interferia em casos extremos, quando achava que as pessoas estavam a fugir da análise. Na maioria do tempo permanecia calado e observador, com aquele ar "eu sei o que estás a fazer". Ou então não era ar nenhum, mas era eu que imaginava, também no meu silêncio grávido.

Eu pensava que estava preparada para o silêncio, até estar grávida. Manter o segredo da gravidez durante 3 meses não me foi natural ou fácil, ao contrário do que seria expectável na minha pessoa pessimista e reservada. Achei o silêncio castrador e anti-natura. Uma experiência esquizofrénica, forçando-me a viver em duas realidades paralelas, uma das quais só era real para mim e mais umas outras poucas pessoas, enquanto vivia e trabalhava noutra.

O silêncio dos três meses deve ser mais uma daquelas invenções modernas, uma forma asséptica de (não) lidarmos com a realidade de não controlarmos nada, uma forma estéril de não nos desiludirmos. Mas a vida tem uma infinidade de formas de nos magoar tramando-nos as expectativas, mesmo quando nos esforçamos por acreditar que não temos nenhumas.

Para os pais (homens) é demasiado fácil: no início é só uma ideia e é tão fácil não pensar nela. Para as mães, é diferente. Desde o início, nada fica na mesma: o que se come, o que se bebe, as consultas-exames-análises a marcar, os enjoos, a resistência física que começa a transformar-se na subida que se faz todos os dias, até a porra dos cremes, das tintas, dos vernizes: tudo relembra, em vários momentos do dia, que já é mais do que uma ideia. Independentemente do destino da gravidez, ela já é. E não é o silêncio que a anula.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Quando reclamar não chega

E quando numa determinada instituição de saúde privada cujo nome começa em "cruz" e acaba em "elha", um médico nas urgências recusa ceder uma maca a uma pessoa de 87 anos dizendo que "aquilo não é a sopa dos pobres", está a merecer o quê? É que nem num restaurante caro uma pessoa é tão mal tratada, porque é que estes gajos que prestam serviços de saúde acham que podem dizer e fazer tudo? É a barriga cheia?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Robin Valentim Hood

E eu que me dei conta que me roubaram um livro da caixa do correio? Ontem saí de casa ao fim do dia, vi-o na caixa do correio mas pensei que já estava pesada o suficiente para o passear por Lisboa. Quando voltei à noitinha já lá não morava. Nem queria acreditar, quem é que se dá ao trabalho de tal coisa? Roubar livros não é um bocadinho fora de moda?

Pensei em mil planos diabólicos: meter ratoeiras dentro da caixa, meter uma câmara, meter um pacote bonitinho disfarçado de livro e que dentro dizia "eu sei o que andas a fazer e onde vives" (só que não), meter um aviso a dizer aos senhores do correio para entrarem e me porem tudo à porta (como fazem carinhosamente os senhores da book depository com os livros que não cabem no correio), enviar um email a todos os vizinhos para se porem à escuta, mas depois pensei, que com um bocadinho de sorte, hoje alguém o está a receber de presente. Ou isso ou está na feira da ladra.

Amor que arruma a loiça da máquina

A seguir ao discutível mega sucesso do Eat, Pray Love, a Elisabeth Gilbert escreveu Committed, onde continua a história com o homem por quem se apaixonou em Bali, enquanto tenta pacificar-se com a decisão de não ter filhos e com a ideia de voltar a casar, sob pena do companheiro não poder voltar a entrar nos Estados Unidos. Recorre à mãe, à avó e às histórias de outras pessoas em relações estáveis, para perceber o que é isto afinal, de se estar numa relação e de se ser mulher-mulher e mulher-esposa. 

O livro nunca se tornou muito conhecido, talvez no fundo, ninguém tenha muito interesse em saber o que acontece a seguir ao amor de sonho.

Há uma frase qualquer em que ela diz que o que os monges procuram em vidas solitárias nos mosteiros, a maioria de nós procura em discussões na mesa da cozinha, nas confusas, incómodas, infinitas disparidades entre um casal. E eu concordo. Estar junto é aceitar essa quota de desconforto, que algumas coisas nunca serão exactamente como queríamos, porque está lá outra pessoa, mas que ainda assim, vale a pena.

Nestes dias de São Valentim, parece-me que as pessoas se identificam sempre mais com aquele amor que se conhece em Bali, longe do trabalho, do despertador, das rotinas, e pouco com o amor que se constrói mais na vida e menos nos sonhos. Não me chateia que me tragam água de coco enquanto estou esparramada na toalha, mas assim como assim, prefiro que me arrumem a loiça da máquina.

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Ou isto.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Under Pressure

(mas já houve alguma mulher que não tenha conseguido engravidar porque chegou aos 50 sem dar conta?)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Silêncio



Questiono-me se não eram afinal mais sábios os antigos, que festejavam os equinócios, idolatravam a lua e sol, as marés e os ventos, os fenómenos naturais visíveis, não controlados e sobretudo, vividos por todos os seres vivos que habitam esta Terra.

Um filme sobre a fé, que me pareceu mais uma história sobre a arrogância e poder. Quem ou que se julgavam os portugueses ou espanhóis, para ir evangelizar o Japão?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Igualdade a pedido




Ontem uma colega dizia-me: a partir do momento em que uma mulher nasce, o seu destino está traçado. Na cozinha, digo eu. De todo o tipo de desigualdade de género, aquela que sempre me irritou mais profundamente é a que se passa dentro de portas. Se as mulheres ocuparam cargos que anteriormente nunca ocupariam e podemos hoje zangar-nos pelo abismo salarial entre géneros, já da cozinha poucas saíram. Lembro-me de numa ocasião familiar uma mulher ter dito: "aqui há igualdade, os homens não precisam de abrir portas, nem dar passagem". Olhei em volta: todas as mulheres estavam de pé, em viagens regulares de levar e trazer pratos e todos os homens estavam sentados. Todos. E eram muitos.

É claro que há homens que cozinham. E também estendem roupa e sabem pôr máquinas a lavar. Mas há uma série de tarefas invisíveis que maioritariamente continuam a ser feitas por mulheres. Tenho uma amiga que diz que já tem óculos da google há muito tempo: anda pela casa e os olhos não param de identificar objectos espalhados pela casa à espera de serem arrumados. Mas aparentemente, mulheres e homens vivem em realidades diferentes. Aquele balde com água suja perdido no hall há uma semana só existe na realidade feminina. Homens, por todo esse Mundo, continuam a não encontrar o tupperware que olha para eles dentro do armário.

Tenho muitas amigas que são orgulhosamente independentes: estudaram o que quiseram, decidiram e constroem a própria carreira, conduzem o próprio carro, até organizam as próprias saídas e viagens, e são muito mais independentes do que qualquer avó podia ter sonhado. Mas em casa, têm que pedir que apanhem a roupa porque vai chover, têm que pedir que façam o jantar porque vão chegar tarde, têm que pedir que passem no supermercado e comprem pão, têm que pedir que lavem aquela panela que está há três dias no lava-loiça, têm que pedir que limpem o pó, têm que pedir que limpem as casas de banho, têm que pedir que troquem a lâmpada. Têm que pedir. Como se fossem a mãe do adolescente que revira os olhos quando lhe mandam arrumar o quarto.

Parte do problema, acho, é sermos demasiado exigentes. Passámos essa exigência para fora de portas, sem nunca abdicar de nenhuma das competências anteriores. Se hoje em dia é mais comum uma mulher não saber ou não querer cozinhar, poucas são as que se permitem sentar no sofá e ignorar a loiça acumulada na cuba, ou a roupa em cima da cadeira, ou o pó por limpar há duas semanas. Dizia-me no outro dia uma amiga grávida, que agora estava muito cansada e tinha que se desleixar mais com a casa, excepto cozinha, casas de banho e quartos, que tinham que estar numa higiene impecável. E ela não se estava a rir.

O ditador machista está em vias de extinção dentro de portas, mas continua a existir e de boa saúde, dentro da cabeça de cada mulher. Se calhar, tem mesmo que haver dias em que ninguém come em casa porque não há jantar, porque ninguém pensou nisso. Ou que não há roupa para vestir, porque ninguém tratou dela. Se calhar é mesmo preciso que tudo falhe, para que os mundos paralelos finalmente colidam.

Ou isso ou têm que pedir. Igualdade.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Restam histórias

Sentados na mesa de café, o meu irmão pediu ao meu avô que contasse as histórias dele com o Mário Soares. A minha avó refilou, diz que já não se aguenta tanta conversa sobre o homem. Mas o meu avô, com a típica memória de 86 anos, iniciou o rol de histórias do passado numa orientação temporal confusa, mas que eu e o meu irmão conhecemos desde sempre e vamos apoiando o discurso.

Terminou a sorrir "belos tempos". A minha avó com sorriso de orelha a orelha responde-lhe: éramos novos.

Mas tudo isso faz parte do passado. E em breve, dos meus avós, também só me restarão as histórias. Preservo-as com carinho.