quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Igualdade a pedido




Ontem uma colega dizia-me: a partir do momento em que uma mulher nasce, o seu destino está traçado. Na cozinha, digo eu. De todo o tipo de desigualdade de género, aquela que sempre me irritou mais profundamente é a que se passa dentro de portas. Se as mulheres ocuparam cargos que anteriormente nunca ocupariam e podemos hoje zangar-nos pelo abismo salarial entre géneros, já da cozinha poucas saíram. Lembro-me de numa ocasião familiar uma mulher ter dito: "aqui há igualdade, os homens não precisam de abrir portas, nem dar passagem". Olhei em volta: todas as mulheres estavam de pé, em viagens regulares de levar e trazer pratos e todos os homens estavam sentados. Todos. E eram muitos.

É claro que há homens que cozinham. E também estendem roupa e sabem pôr máquinas a lavar. Mas há uma série de tarefas invisíveis que maioritariamente continuam a ser feitas por mulheres. Tenho uma amiga que diz que já tem óculos da google há muito tempo: anda pela casa e os olhos não param de identificar objectos espalhados pela casa à espera de serem arrumados. Mas aparentemente, mulheres e homens vivem em realidades diferentes. Aquele balde com água suja perdido no hall há uma semana só existe na realidade feminina. Homens, por todo esse Mundo, continuam a não encontrar o tupperware que olha para eles dentro do armário.

Tenho muitas amigas que são orgulhosamente independentes: estudaram o que quiseram, decidiram e constroem a própria carreira, conduzem o próprio carro, até organizam as próprias saídas e viagens, e são muito mais independentes do que qualquer avó podia ter sonhado. Mas em casa, têm que pedir que apanhem a roupa porque vai chover, têm que pedir que façam o jantar porque vão chegar tarde, têm que pedir que passem no supermercado e comprem pão, têm que pedir que lavem aquela panela que está há três dias no lava-loiça, têm que pedir que limpem o pó, têm que pedir que limpem as casas de banho, têm que pedir que troquem a lâmpada. Têm que pedir. Como se fossem a mãe do adolescente que revira os olhos quando lhe mandam arrumar o quarto.

Parte do problema, acho, é sermos demasiado exigentes. Passámos essa exigência para fora de portas, sem nunca abdicar de nenhuma das competências anteriores. Se hoje em dia é mais comum uma mulher não saber ou não querer cozinhar, poucas são as que se permitem sentar no sofá e ignorar a loiça acumulada na cuba, ou a roupa em cima da cadeira, ou o pó por limpar há duas semanas. Dizia-me no outro dia uma amiga grávida, que agora estava muito cansada e tinha que se desleixar mais com a casa, excepto cozinha, casas de banho e quartos, que tinham que estar numa higiene impecável. E ela não se estava a rir.

O ditador machista está em vias de extinção dentro de portas, mas continua a existir e de boa saúde, dentro da cabeça de cada mulher. Se calhar, tem mesmo que haver dias em que ninguém come em casa porque não há jantar, porque ninguém pensou nisso. Ou que não há roupa para vestir, porque ninguém tratou dela. Se calhar é mesmo preciso que tudo falhe, para que os mundos paralelos finalmente colidam.

Ou isso ou têm que pedir. Igualdade.

9 comentários:

  1. O Porta dos Fundos tem um sketch muito parecido e igualmente mordaz: https://www.youtube.com/watch?v=71nbCHS1B8Q

    Quanto ao texto, *suspiro* totalmente de acordo. Isso do ter que pedir é esgotante. Não admira que tantas mulheres desistam e acabem por fazer elas tudo. Mas depois cai-lhes toda a gente em cima, porque 'não há igualdade porque elas não deixam', 'elas é que querem fazer tudo sozinhas', e afins.

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    1. No fundo a culpa é sempre da mulher. E quando há filhos, acho que a coisa se complica. Quantos homens aparecem nas reuniões de pais? Porque não chamar-lhe reuniões de mães? :P

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    2. fui dar com o teu post sobre a maternidade. vou pensar no assunto :)

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  2. É isso mesmo. A verdade é que tenho sorte nesse aspecto mas ainda assim há imensa verdade aí.

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    1. Claro, os meus pais por exemplo, não são nada exemplo disto. A minha mãe não é uma dona de casa nada convencional. São míticos os desastres gastronómicos da minha mãe a estrelar um ovo ou a cozinhar frango.

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  3. Verdade! Quantas e quantas de nós nos orgulhamos da suposta igualdade entre o casal mas depois temos que andar sempre a pedir. Para mim, igualdade seria eles preocuparem-se tanto com as coisas como nós, fazerem porque tem que ser feito e percebem isso, não sendo preciso estar sempre a "mãezinha" a ralhar e a pedir para que as coisas sejam feitas. Detesto esta suposta igualdade baseada na nossa pedinchice!

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  4. Bof. Lá em casa a coisa até corre maizoumenos, que mate é do tipo arrumado e asseado, mas ainda assim há muita coisa "invisível" que uma certa fadinha é que faz.
    E quanto a encontrar coisas, duplo bof. A minha expressão "se eu tenho de ir aí" já é conhecida como ameaça.

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    1. O fuschio também é um bocado engenheiro nas lides, às vezes desmonta-me tudo o que tive a estender, porque não segui O Método. Mas ainda assim acho que temos sensibilidades e exigências internas diferentes em relação à casa. Não me lembro de ter sido educada de maneira diferente do meu irmão para ser dona de casa mas também não acredito que seja puramente genético e biológico.

      (se eu tenho de ir aí é muito bom :D
      ele reclama é de quando me desce o espírito da arrumação, diz que depois nunca mais encontra as coisas que eu "arrumo")

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    2. Isso das exigências internas é uma chatice e uma cruz que eu carrego. Aprendi a relaxar e baixar expectativas, caso contrário andava sempre tensa, cansada e zangada. Também posso dar-me ao luxo, que tenho empregada para as coisas mais chatas e não tenho filhos, logo, a desarrumação nunca chega a ser caótica.
      Envolvo-o sempre que posso. Às vezes é preciso mandar a boca ou pedir (odeio!), mas o que tento é planear e executar arrumações mais chatas em conjunto. E depois há aqueles dias em que chego a casa e ele apanhou roupa, fez outra máquina, tirou louça da máquina... E apesar de não ser nada de especial, faço reforço positivo (who's a good boy?, who's a good boy?). Caraças, se eu fizesse alarde cada vez que faço alguma coisa, cruzes. Mas tem de ser, chato do cromossoma y, precisa do reconhecimento.

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Digo eu de que: